
Agora, no interior da carcaça empoeirada de uma das bibliotecas mais antigas da Faixa de Gaza, um grupo de voluntários palestinianos trabalha com afinco para salvar o que resta do seu antigo património cultural.
A biblioteca da Grande Mesquita Omari foi gravemente danificada por Israel durante a sua brutal guerra em Gaza, que eclodiu em outubro de 2023 e devastou vastas áreas do território palestiniano, incluindo locais culturais e religiosos.
A mesquita — situada na cidade velha de Gaza — encontra-se hoje em grande parte em ruínas, com a sua biblioteca coberta de escombros e pó.
"Fiquei chocada e atônita quando vi a extensão da destruição na biblioteca", afirmou Haneen Al Amsi, acrescentando que as cenas de devastação a levaram a ajudar a lançar a iniciativa de restauro.
Amsi, que lidera a Fundação Voluntária Eyes on Heritage, disse que a parte ocidental da biblioteca foi incendiada quando a mesquita foi atingida pelas forças israelenses, causando danos irreversíveis.
"Estimava-se que a biblioteca continha cerca de 20.000 livros, mas atualmente restam-nos menos de 3.000 ou 4.000", explicou.
Um tesouro de artefactos arqueológicos
Entre os escombros, os voluntários que procuram restaurar a coleção debruçaram-se sobre fragmentos carbonizados de manuscritos e pedaços de papel amarelado.
"A biblioteca da Grande Mesquita Omari é considerada a terceira maior biblioteca da Palestina, a seguir à biblioteca da Mesquita Al-Aqsa e à biblioteca Ahmed Pasha al Jazzar", disse Amsi.
"É uma biblioteca histórica de grande importância que contém manuscritos originais e uma coleção diversificada de livros sobre jurisprudência, medicina, direito islâmico, literatura e vários outros temas."
A história de Gaza remonta a milhares de anos, tornando o território num verdadeiro tesouro de artefactos arqueológicos de civilizações passadas, incluindo cananitas, egípcios, persas e gregos.
Mas mais de dois anos de guerra israelense em Gaza cobraram um pesado tributo nos sítios patrimoniais do enclave.
Até janeiro de 2026, a agência cultural da ONU, a UNESCO, havia verificado danos em 150 sítios desde o início da guerra. Entre eles encontram-se 14 locais religiosos e 115 edifícios de interesse histórico ou artístico.
"Representam a história"
No interior de uma das antigas salas de pedra da biblioteca, uma mulher usava um pincel para remover o pó de um velho volume, enquanto outros voluntários, com máscaras e luvas, se agachavam no chão para folhear pilhas de livros.
"O estado dos livros raros e históricos é deplorável, devido ao abandono a que foram sujeitos durante mais de 700 a 800 dias", disse Amsi, falando em "danos imensos e resíduos de pólvora" nos volumes.
Uma comissão independente das Nações Unidas afirmou em junho de 2025 que os ataques israelenses a escolas, locais religiosos e culturais em Gaza constituíam crimes de guerra.
"Israel obliterou o sistema educativo de Gaza e destruiu mais de metade de todos os locais religiosos e culturais em Gaza", declarou a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU sobre o Território Palestiniano Ocupado num relatório.
O regime israelense rejeitou a comissão como "um mecanismo inerentemente tendencioso e politizado do Conselho de Direitos Humanos" e afirmou que o relatório constituía "mais uma tentativa de promover a sua narrativa fictícia sobre a guerra em Gaza".
Para Amsi, a importância de restaurar os livros reside na preservação de registos históricos fundamentais.
"Estes livros representam a história da cidade e testemunham acontecimentos históricos", afirmou.
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