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entrevista com professora Cristina Vital da Cunha

10:25 - October 23, 2022
Id de notícias: 621
uma entrevista com Cristina Vital da Cunha professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal Fluminense sobre a eleição presidencial no brasil

entrevista com professora Cristina Vital da CunhaComo a eleição presidencial deste ano no Brasil é diferente das eleições anteriores?

A primeira diferença em relação às eleições em 2018 é que o principal concorrente de Jair Bolsonaro está disputando as eleições e saiu em primeiro lugar no primeiro turno. As condições sociais e econômicas no Brasil estão mais graves devido à gestão de Bolsonaro ao longo desses quatro anos à frente da presidência e em decorrência também da pandemia e do desafio econômico internacional. O debate público está sendo pautado por questões morais e religiosas trazidas fortemente pela campanha de Jair Bolsonaro que usa a linguagem religiosa como uma linguagem política,  uma forma de se comunicar com a população recorrendo à gramática cristã, sobretudo, pentecostal. Os grandes temas como combate à fome, combate à corrupção, planos para desenvolvimento nacional, educação ficaram em segundo plano na campanha presidencial. Lula introduziu esses temas, assim como os dois outros candidatos que ficarem em terceiro e quarto lugar respectivamente: Simone Tebet (MDB) e Ciro Gomes (PDT). A retórica da perda, uma categoria que usei para me referir a uma narrativa importante nas eleições de 2018 mobilizada pela candidatura de Bolsonaro e por outros vitoriosos naquela eleição também foi utilizada em 2022. Os mais conservadores afirmam que as tradições, os costumes e a religião cristã estão sob ameaça e a eleição de Bolsonaro e outros candidatos conservadores em partidos de direita são importantes para reverter as ameaças que a esquerda representaria à família, aos costumes e tradições nacionais.

 

 

Durante a presidência de Bolsonaro, vimos seus comentários e ações que se assemelhavam fortemente às ações de seu colega americano, Donald Trump. Como o governo de Bolsonaro vê as minorias raciais e religiosas no Brasil, como os muçulmanos?

Bolsonaro se inspirou em muitos comportamentos de Donald Trump. Isso foi notório em 2018, durante o seu governo e agora nas eleições 2022. Bolsonaro defende uma concepção ancorada em uma visão distorcida de democracia liberal na qual as minorias devem se render às maiorias. Desta forma, afirma que a maioria nacional é cristã e então os afro religiosos devem se submeter. Devem ser respeitados, mas se submeter a este lugar de “minoria moral”. Essa forma de pensar inviabiliza a produção de políticas públicas para esses grupos. Em relação aos muçulmanos, as elites muçulmanas, assim como judias no Brasil, apoiaram Bolsonaro em 2018 e em 2022. No entanto, em termos das relações internacionais, pronunciou-se de modo islamofóbico na medida em que afirmou que o Brasil estava pronto para receber refugiados do Talibã, “mas só os cristãos”, disse durante sua participação na Assembleia Geral da ONU. Analistas disseram que esta postura demonstrava em parte intolerância religiosa, em parte preconceito em relação a população mais pobre. Durante seu governo, em diferentes situações disse que o Brasil estava vivendo uma cristofobia e se referia à perseguição cristã em países no oriente médio e na China para reforçar sua narrativa. Ao mesmo tempo, cumpriu agenda comercial e diplomática com alguns líderes muçulmanos, assim como faz afagos e acenos para a parte da comunidade muçulmana vinculada ao agronegócio no Brasil. Ou seja, de modo geral é contra minorias, mas a favor de grupos de poder e elites nacionais e internacionais.

 

 

O Brasil é um país muito diverso religiosamente. Qual é a situação atual dos muçulmanos brasileiros neste país e quanta influência você acha que essa minoria pode ter nas eleições presidenciais brasileiras deste ano?

Segundo dados da Federação de Associações de Muçulmanos no Brasil, há 90 mesquitas e salas de oração no país, mais de 80 centros islâmicos e quase dois milhões de muçulmanos (entre pessoas de origem árabe e brasileiros convertidos ao islamismo).  Os muçulmanos no Brasil têm grande importância na cultura e na economia nacionais. No agronegócio, setor mais importante da economia nacional atualmente, conta com a presença importante da comunidade islâmica. Enquanto os muçulmanos são minoria populacional, tendo forte presença no setor econômico (comércio e agronegócio), Bolsonaro e os líderes cristãos que o seguem mantem relações cordiais e, em alguns casos, amistosa. Se os muçulmanos passarem a disputar espaços de poder político aí já não se pode dizer que as relações serão as mesmas.

 

 

Existe islamofobia no Brasil tão forte quanto na Europa e na América?

Não. De modo geral, a sociedade brasileira valoriza muito a cultura árabe/muçulmana, as artes, a culinária, a literatura e a intelectualidade. É também conhecida no Brasil, sobretudo entre estudiosos, pensadores e integrantes e simpatizantes da esquerda nacional, o posicionamento pró-Palestina nos conflitos com Israel. O governo Bolsonaro é que inaugurou um apoio nacional a Israel, mas, ainda assim, não conseguiu promover nenhuma ação concreta em relação ao Estado de Israel como a questão da mudança da Embaixada do Brasil para Jerusalém.

 

Como outros candidatos presidenciais brasileiros encaram questões sociais como os direitos de minorias religiosas e sociais como os muçulmanos?

O debate sobre a liberdade religiosa no Brasil tem sido muito intensa nessas eleições. Bolsonaro acusa Lula de ser contra igrejas evangélicas. Muitas fake News circularam sobre isso e a campanha de Lula começou a divulgar as várias ações em prol da liberdade religiosa e mesmo de evangélicos que o ex-presidente fez. Instituiu o Dia do Evangélico, assinou a lei de Liberdade Religiosa, constituiu grupos pela diversidade religiosa no âmbito do governo federal (incluindo lideranças islâmicas), decretou o dia nacional de combate à Intolerância Religiosa em 2007. As várias ações de combate à intolerância religiosa em âmbito nacional e dos estados contou com a participação importante da comunidade islâmica.

 

 

Como você prevê os resultados da eleição presidencial deste ano no Brasil?

É possível que Lula ganhe as eleições em 2022. Ele saiu do primeiro turno em primeiro lugar e vem se mantendo assim nas pesquisas. No entanto, a vitória não deve ser ampla sobre o adversário. Em caso de derrota de Lula imaginamos também que seja por uma margem pequena o que demonstra a divisão da sociedade brasileira como nunca antes visto em nossa história de modo tão radical e violento.

 

 

 

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