IQNA – Um analista iraquiano acredita que o pacto de defesa de Meca entre Arábia Saudita, Paquistão e Turquia ainda não é uma "OTAN islâmica" no sentido institucional, nem tampouco um acordo puramente simbólico.
Qassem al-Gharawi, analista político iraquiano
Pelo contrário, trata-se de um sinal estratégico do nascimento de um novo conceito de segurança regional, baseado na diversificação das fontes de dissuasão e na redução da dependência do garantidor americano, disse Qassem al-Gharawi à IQNA, em entrevista que segue abaixo:
IQNA – Como o senhor avalia o pacto de Meca? Esse acordo indica um declínio na capacidade dos Estados Unidos de garantir segurança a seus aliados?
Acredito que o acordo de Meca não significa necessariamente o colapso do guarda-chuva de segurança americano, mas indica um declínio na confiança em depender exclusivamente do apoio americano. Essa é uma distinção importante.
Os Estados Unidos ainda mantêm a maior presença militar e possuem as maiores capacidades de inteligência, aéreas e navais na região. É, portanto, difícil argumentar que Washington perdeu sua capacidade de proteger seus aliados. No entanto, desenvolvimentos recentes levaram algumas potências regionais a concluir que depender de uma única potência externa já não é mais uma opção suficientemente segura.
O acordo pode, portanto, ser entendido como uma mudança do conceito de "apoio americano" para o conceito de distribuição de recursos de dissuasão. A Arábia Saudita tem poder financeiro e energético; a Turquia tem um grande exército e uma indústria de defesa sofisticada; e o Paquistão tem poder militar, uma localização estratégica especial e capacidades nucleares significativas.
A mensagem mais importante do acordo, portanto, não é que os Estados Unidos foram removidos da região, mas sim que os países estão dizendo que não serão mais reféns de uma decisão de segurança tomada exclusivamente por Washington. Isso, por si só, já representa uma mudança significativa na arquitetura de segurança regional.
IQNA – Washington busca transferir parte do fardo de sua presença militar para potências regionais por meio desse acordo?
Essa é uma possibilidade que vale a pena considerar, mas não vejo esse acordo simplesmente como um projeto americano para reduzir o fardo militar dos EUA. Há anos os Estados Unidos vêm pressionando seus aliados e parceiros regionais para assumirem uma parcela maior de suas responsabilidades de segurança, já que o custo do envio militar direto aumentou, e Washington quer manter a capacidade de intervir em momentos de necessidade sem precisar gerenciar cada crise sozinha.
No entanto, o acordo de Meca também tem uma dimensão independente de Washington. Os três países têm suas próprias motivações, e alguns deles desejam reduzir sua dependência dos Estados Unidos, em vez de simplesmente executar uma estratégia americana.
Uma interpretação mais precisa, portanto, é que o acordo serve, em parte, ao conceito preferido de Washington de compartilhamento de fardo, mas, ao mesmo tempo, reflete um esforço regional para construir capacidades de dissuasão autossuficientes.
Há um paradoxo aqui: Washington pode se beneficiar desse acordo no curto prazo, mas, no longo prazo, pode se ver diante de um sistema de segurança regional mais independente.
IQNA – Esse acordo é uma resposta ao fortalecimento da "frente de resistência"?
Pode ser visto como parte de uma resposta à intensificação da polarização regional, mas reduzi-lo apenas ao enfrentamento da "frente de resistência" seria uma simplificação excessiva. Há várias motivações que se sobrepõem aqui: as preocupações da Arábia Saudita com ameaças, mísseis e drones iranianos; os cálculos da Turquia em relação à sua segurança regional; e os interesses do Paquistão quanto à segurança do Golfo Pérsico e da Índia, além de seu lugar no mundo muçulmano.
Mais importante ainda, esse acordo está sendo firmado em um ambiente de segurança que tem visto um declínio relativo na capacidade dos arranjos tradicionais de prevenir conflitos. Assim, os três países estão tentando aumentar o custo de qualquer ataque contra eles ao ampliar o alcance de sua resposta.
Em outras palavras, se a equação anterior se baseava no ataque a um único país, a nova equação implica que não se sabe de antemão quantos países se juntarão ao confronto. Esse é o princípio da dissuasão.
IQNA – Estamos testemunhando uma mudança de uma dependência quase exclusiva dos Estados Unidos para múltiplas redes de segurança regionais?
Sim, e, na minha opinião, essa é a consequência estratégica mais importante desse acordo. A região está gradualmente passando de um modelo de "garantidor único" para um modelo de segurança em múltiplas redes.
A Arábia Saudita não quer romper sua relação com os Estados Unidos; a Turquia é membro da OTAN, e o Paquistão mantém relações estratégicas com a China, os Estados Unidos e os países do Golfo Pérsico. Portanto, o objetivo não é criar um eixo fechado, mas sim criar uma margem estratégica de manobra mais ampla.
Isso também está alinhado com a cooperação política mais ampla entre Arábia Saudita, Turquia, Paquistão e Egito, que já existia antes do acordo de Meca e indicava uma tendência de consultas sobre segurança regional. Portanto, esse desenvolvimento pode ser descrito como uma diversificação estratégica de recursos de segurança, e não uma separação completa dos Estados Unidos.
IQNA – Esse acordo pode mudar o equilíbrio de poder, apesar das diferenças entre os três países e da ambiguidade dos compromissos?
Sim, mas não imediatamente, e não necessariamente da forma como alguns imaginam. O acordo tem pontos fortes significativos:
Arábia Saudita: finanças, energia e localização geográfica.
Turquia: um grande exército, experiência operacional e uma indústria de defesa sofisticada.
Paquistão: mão de obra, poder militar, expertise estratégica e capacidades de dissuasão estratégica.
No entanto, a fraqueza fundamental reside na transição de um acordo político para uma capacidade militar conjunta. Até o momento, não existe um comando militar único, como na OTAN, nenhum sistema conjunto de defesa aérea e antimísseis, e nenhuma doutrina operacional única dentro do âmbito do pacto. Essa lacuna fundamental faz com que o acordo, em sua fase atual, seja mais um arcabouço de dissuasão político-militar do que uma aliança militar plena.
Além disso, as diferentes prioridades dos três países são cruciais: a Arábia Saudita concentra-se principalmente na segurança do Golfo Pérsico, do Irã e do Iêmen; a Turquia tem suas próprias preocupações na Síria e no Mediterrâneo Oriental; e a estratégia do Paquistão permanece focada na Índia e na segurança do Sul da Ásia.
O verdadeiro teste desse acordo, portanto, não será no momento da assinatura, mas em uma crise. O que acontecerá se a Arábia Saudita for atacada? A Turquia e o Paquistão intervirão militarmente? Qual será a extensão dessa intervenção? Será aérea, de inteligência, logística ou terrestre? Essas perguntas permanecem praticamente sem resposta.
No entanto, o acordo de Meca ainda não é uma "OTAN islâmica" no sentido institucional, nem tampouco um acordo puramente simbólico. É um sinal estratégico do nascimento de um novo conceito de segurança regional, baseado na diversificação das fontes de dissuasão e na redução da dependência do garantidor americano.
Washington pode se beneficiar do compartilhamento de fardo na fase inicial, mas, ao mesmo tempo, está diante de uma nova realidade: seus aliados começaram a construir capacidades de segurança que não dependem exclusivamente dela.
Mais importante ainda, o acordo não deve ser interpretado simplesmente em termos de "contra quem?", mas sim em uma perspectiva mais profunda: quem controlará a segurança regional no futuro?
A importância do Acordo de Meca reside precisamente aqui; ele pode marcar o início de uma transição de uma segurança gerenciada por grandes potências para uma segurança projetada em conjunto pelas próprias potências regionais.
https://iqna.ir/en/news/3498688