IQNA

20:31 - August 09, 2026
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Índia Está no Caminho para o Ano Mais Violento contra Muçulmanos

IQNA – A Índia está a caminho de registrar o ano mais violento contra sua minoria muçulmana desde o início dos registros sistemáticos.

Pelo menos 44 muçulmanos foram mortos na Índia desde o início de 2026, sendo 19 mortes atribuídas a agentes estatais e 25 a agressores extremistas hindus, segundo um novo relatório que monitora a perseguição a muçulmanos em todo o país.

Pelo menos 25 muçulmanos foram mortos na Índia entre maio e julho, incluindo 15 mortos pela polícia ou por forças de segurança e 10 mortos no que pesquisadores descrevem como ataques com motivação religiosa por grupos extremistas hindus.

Os números, publicados pelo India Persecution Tracker, da South Asia Justice Campaign, indicam que o ritmo das mortes sugere que 2026 pode se tornar o ano mais letal em violência antimuçulmana desde que a organização começou a documentar essas mortes, em 2022.

O rastreador registra não apenas mortes, mas também prisões, demolições, expulsões forçadas e outras formas de ação estatal que afetam a minoria muçulmana da Índia.

Entre os mortos entre maio e julho estavam uma menina de 11 anos e um menino de 16 anos, segundo o relatório.

Os dados revelam um retrato de uma comunidade muçulmana sob pressão tanto de instituições estatais quanto de agentes extremistas hindus, com impactos que vão muito além de casos individuais de violência.

"Um repertório completo de coerção"

A South Asia Justice Campaign afirma que as instituições estatais indianas continuaram a utilizar o que a organização chama de um conjunto de medidas coercitivas já consolidadas contra os muçulmanos.

Isso inclui supostas execuções extrajudiciais, mortes sob custódia, prisões em massa, demolições de casas e mesquitas, e a remoção de famílias de áreas próximas às fronteiras da Índia.

O relatório destaca particularmente Uttar Pradesh, Assam, Caxemira e Bengala Ocidental como regiões onde essas ações têm sido mais frequentes.

O termo "agentes estatais", no relatório, refere-se principalmente à polícia, às forças de segurança e a outras autoridades governamentais, e não a indivíduos particulares ou grupos armados.

Segundo o rastreador, mais de 1.000 residências, empreendimentos comerciais e estruturas religiosas de muçulmanos foram demolidos em pelo menos 21 episódios distintos, em oito estados, durante o período abrangido.

Pelo menos 23 estruturas religiosas muçulmanas teriam sido demolidas em menos de dois meses, em seis estados.

O rastreador afirma que o número de residências, empreendimentos comerciais e estruturas religiosas muçulmanas demolidas desde o início de 2026 já ultrapassou 3.000.

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As demolições se tornaram uma questão profundamente controversa na Índia, onde as autoridades por vezes descrevem o uso de retroescavadeiras como ação contra construções ilegais ou suspeitos de crimes. Críticos, no entanto, argumentam que essa prática tem sido aplicada de forma seletiva contra muçulmanos e pode equivaler a uma punição sem o devido processo legal.

O relatório também critica a forma como o Judiciário indiano tem lidado com os casos de demolição, afirmando que a Suprema Corte se recusou a fazer cumprir salvaguardas que ela mesma havia estabelecido anteriormente, optando, em vez disso, por devolver petições de desacato aos Tribunais Superiores estaduais.

Caxemira: detenções em massa após ataque de militantes

Na Caxemira administrada pela Índia, o relatório afirma que as forças de segurança detiveram mais de 2.500 pessoas em até 48 horas após um ataque de militantes ocorrido em julho.

O relatório também alega que as casas de duas famílias foram demolidas com o uso de explosivos.

A Caxemira permanece fortemente militarizada há décadas, devido ao longo conflito entre Índia, Paquistão e grupos separatistas armados. As autoridades indianas costumam defender as operações de segurança como necessárias para combater a militância.

Mas organizações de direitos humanos vêm reiteradamente levantando preocupações sobre punição coletiva, detenção arbitrária e o tratamento dado à população civil.

O rastreador também alega que a polícia, em diversos estados, prendeu muçulmanos de forma seletiva durante protestos estudantis em nível nacional.

Bengala Ocidental: muçulmanos enfrentam uma nova realidade política

Bengala Ocidental ocupa lugar de destaque no relatório.

O estado foi por muito tempo governado pelo Congresso Trinamool, mas a primeira vitória do BJP em uma eleição estadual ali mudou drasticamente seu panorama político.

O rastreador afirma que, após a vitória do BJP, ataques a mesquitas, negócios de propriedade de muçulmanos e assentamentos ocupados por vendedores ambulantes muçulmanos deixaram pelo menos duas pessoas mortas.

Uma das vítimas, segundo relatos, tentava proteger uma mesquita.

O relatório também destaca uma série de medidas governamentais que, segundo afirma, afetam desproporcionalmente os muçulmanos, incluindo mudanças nos programas de assistência social e na triagem de cidadania, alterações no sistema de cotas (reservation system) e cortes significativos no financiamento de assuntos de minorias e de madrassas.

Madrassas são escolas religiosas islâmicas, muitas das quais também oferecem educação geral.

O rastreador afirma que 77 comunidades muçulmanas foram removidas da lista estadual de cotas para classes atrasadas, enquanto as madrassas passaram a ser submetidas a maior vigilância.

O relatório também alega que a polícia recebeu instruções para entregar pessoas detidas como supostos "infiltrados" às forças de fronteira, sem antes apresentá-las perante um tribunal.

O governo estadual afirmou que cerca de 4.800 pessoas foram "deportadas" durante seu primeiro mês no poder.

O tratamento dado aos muçulmanos falantes de bengali tornou-se especialmente controverso.

As autoridades têm utilizado o termo "infiltrados" para descrever pessoas que, segundo alegam, entraram ilegalmente na Índia vindas do vizinho Bangladesh. Organizações de direitos humanos, no entanto, alertam que esse tipo de linguagem pode confundir a distinção entre migrantes indocumentados e cidadãos indianos que vivem no país há gerações.

Essa distinção é particularmente importante em um país onde milhões de pessoas compartilham idioma, cultura e laços familiares através da fronteira entre Índia e Bangladesh.

"Detectar, Excluir e Deportar"

Preocupações semelhantes surgiram em Assam, estado no nordeste da Índia que faz fronteira com Bangladesh.

O governo estadual tem promovido o que chama de "repatriações" (pushbacks), referindo-se à remoção de pessoas que considera migrantes ilegais.

O ministro-chefe de Assam afirmou que 1.679 pessoas foram "devolvidas" ao longo dos últimos dois anos.

A Human Rights Watch, no entanto, documentou casos em que forças indianas teriam levado famílias, incluindo crianças, por brechas na cerca da fronteira durante a noite.

A South Asia Justice Campaign afirma que essa política levanta sérias questões sobre cidadania e devido processo legal.

O relatório também aponta o uso repetido da expressão "Detectar, Excluir e Deportar", que se refere à identificação de supostos estrangeiros, à remoção de seus nomes das listas eleitorais e, por fim, à sua deportação.

Relatores Especiais da ONU já alertaram anteriormente que o discurso sobre "infiltrados" corre o risco de confundir cidadãos muçulmanos indianos com estrangeiros e pode contribuir para a discriminação contra os muçulmanos.

Para muitos muçulmanos indianos, a questão não se resume apenas à migração. Trata-se de saber se a própria cidadania pode se tornar condicional à religião, ao idioma ou à ascendência.

https://iqna.ir/en/news/3498583

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