Estreito de Hormuz
Jihad Haidar, analista político no Líbano, escreveu um artigo sobre o tema no site de notícias Al-Ahed. O artigo segue abaixo:
A disputa em torno do Estreito de Hormuz hoje não trata simplesmente da liberdade de navegação ou da segurança dos recursos energéticos, mas sim de um redesenho do equilíbrio de poder no Golfo Pérsico e na Ásia Ocidental. O estreito tornou-se uma ferramenta política que o Irã utiliza para redefinir as regras de dissuasão e influência, enquanto os Estados Unidos consideram essencial impedir esse desenvolvimento para manter a ordem regional sobre a qual se sustentam seus interesses e os de seus aliados, principalmente o regime sionista. Assim, as consequências da disputa pelo Estreito de Hormuz vão além da economia global e afetam direta e indiretamente a segurança interna do regime israelense de ocupação.
O Irã sabe que o equilíbrio tradicional de poder frente aos Estados Unidos e ao regime sionista não lhe é favorável, e por isso deslocou seu foco da superioridade militar para a interdependência econômica global. Não é necessário fechar permanentemente o Estreito de Hormuz; basta condicionar a navegação por ele à sua capacidade de exercer influência e estabelecer o princípio de que a segurança do Golfo Pérsico não pode ser garantida sem levar em conta seus interesses. Nesse sentido, o Estreito de Hormuz, mais do que um mero instrumento de pressão militar, torna-se um meio de reconhecimento político do papel regional do Irã.
Para o regime sionista, o perigo reside no fato de que o sucesso dessa equação destruiria um dos pilares mais importantes de sua segurança interna: a contínua dominância dos Estados Unidos sobre o sistema de segurança do Oriente Médio. Por décadas, a estratégia do regime de ocupação baseou-se na premissa de que os Estados Unidos são capazes de proteger as rotas comerciais e energéticas, dissuadir potências regionais e impor as regras de engajamento. Caso o Irã viesse a obter a capacidade de interromper a navegação ou ditar os termos do transporte marítimo, isso significaria uma transferência da iniciativa estratégica de Washington para Teerã.
Esse impacto não se limita à esfera militar; estende-se também ao ambiente político em que o regime sionista opera. Quanto maior o custo do confronto com o Irã para a economia global, maior será a pressão internacional para evitar guerras em larga escala e buscar arranjos que levem em conta os interesses iranianos. Isso limita a margem de manobra do regime sionista, já que qualquer operação militar de grande escala será posteriormente avaliada não apenas por seus resultados no terreno, mas também por seu impacto sobre a segurança energética e o comércio internacional.
Por outro lado, o conflito pelo Estreito de Hormuz oferece ao Irã a oportunidade de fortalecer sua posição entre os países do Golfo Pérsico. Esses países, apesar de sua contínua dependência da cooperação de segurança com os Estados Unidos, sabem que qualquer confronto aberto poderia colocar suas instalações petrolíferas e portos no centro do conflito. Quanto maior essa consciência, maior a necessidade de os países do Golfo Pérsico estabelecerem canais de entendimento com Teerã. Do ponto de vista israelense, qualquer enfraquecimento da aliança regional contra o Irã representa uma mudança estratégica que reduziria a eficácia da rede de cooperação que Tel Aviv e Washington vêm trabalhando para construir nos últimos anos.
Além disso, a batalha pelo Estreito de Hormuz não se limita ao Golfo Pérsico; estende-se ao Mar Vermelho e ao Estreito de Bab al-Mandab, onde o Irã, por meio de seus aliados, pode ampliar sua pressão sobre o comércio internacional. Isso multiplica os desafios enfrentados pelo regime israelense, que depende cada vez mais das rotas marítimas para comércio, importações e exportações. Quanto mais amplo o alcance das ameaças marítimas, maior a necessidade de Israel distribuir seus recursos militares entre múltiplas frentes, aumentando assim o custo da dissuasão e da defesa.
Mais importante ainda, o conflito pelo Estreito de Hormuz representa uma mudança na natureza do poder regional. Em vez de buscar o controle territorial, o Irã agora utiliza a geografia para exercer influência política. Caso consiga estabelecer o princípio de que a segurança marítima só pode ser alcançada com seu consentimento, obterá uma influência que ultrapassa suas capacidades militares, conferindo-lhe maior poder para influenciar as decisões de potências internacionais e regionais.
A batalha pelo Estreito de Hormuz, portanto, não é simplesmente uma batalha por uma passagem marítima, mas uma batalha pela identidade da ordem de segurança na Ásia Ocidental. O sucesso dos Estados Unidos em neutralizar a carta iraniana significaria preservar o ambiente estratégico sobre o qual o regime sionista se apoia, enquanto o sucesso do Irã em transformar o Estreito em uma ferramenta de influência impulsionará seu projeto regional e criará uma região mais plural, na qual a hegemonia americana declinará gradualmente em favor de novos equilíbrios de poder.
Nessa perspectiva, o Estreito de Hormuz é mais do que uma questão de preços do petróleo ou de segurança marítima para o regime sionista; é um caso de teste para o futuro equilíbrio de poder sobre o qual sua estratégia de segurança se baseou por décadas. O Estreito não é o verdadeiro alvo do conflito, mas sim um instrumento que pode redesenhar o equilíbrio de poder na região e ter consequências diretas para a segurança do regime sionista e para o ambiente estratégico em que ele opera.
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